TDAH em Mulheres Adultas de Alta Performance: Por Que o Diagnóstico Chega Tarde Demais
- Andrea Araujo
- há 5 dias
- 8 min de leitura

Você termina o dia exausta, mas não consegue parar. Sua agenda está sempre cheia, suas entregas são impecáveis, e quem te olha de fora vê uma mulher que "tem tudo sob controle". Por dentro, você sente que está correndo em uma esteira que nunca desacelera — e que, se parar um segundo, tudo vai desmoronar.
Você já pensou que talvez não seja falta de disciplina. Que talvez não seja ansiedade comum. Que talvez exista um nome para esse jeito de funcionar que você carrega desde sempre, mas que nunca ninguém levou a sério — nem você mesma?
Esse artigo é para você.
O TDAH que ninguém vê
Quando a maioria das pessoas pensa em TDAH, imagina uma criança hiperativa, incapaz de ficar sentada, que interrompe a aula e esquece o caderno em casa. Essa imagem não é errada — mas é incompleta. E essa incompletude custou décadas de invisibilidade para milhões de mulheres.
A ciência já sabe, há algum tempo, que o TDAH se apresenta de formas distintas a depender do gênero. Nos meninos, o subtipo hiperativo/impulsivo tende a ser mais prevalente e mais visível — o que historicamente garantiu a eles diagnósticos mais precoces e acesso mais rápido a suporte. Nas meninas, o subtipo predominantemente desatento é muito mais comum: pensamentos que se dispersam em segundos, dificuldade de sustentar foco em tarefas que não estimulam, hipersensibilidade emocional, memória de trabalho instável e uma sensação permanente de estar "fora do ritmo" do mundo.
O problema é que desatenção silenciosa não incomoda a sala de aula. Não incomoda os pais. Não incomoda ninguém — exceto a própria menina, que aprende muito cedo que precisa se adaptar.
A arte da camuflagem: o que começa na infância e nunca termina
Mulheres com TDAH são, frequentemente, mestras em disfarçar. Não por escolha consciente, mas por sobrevivência social. Desde cedo, elas aprendem que ser "diferente" tem um custo — e desenvolvem estratégias sofisticadas para que ninguém perceba.
Essas estratégias têm um nome clínico: masking, ou camuflagem. E elas incluem coisas como estudar três vezes mais para compensar a dificuldade de concentração, criar sistemas de organização obsessivos para não esquecer nada, usar o perfeccionismo como escudo contra críticas, e imitar comportamentos sociais que não são naturais para elas — apenas para parecerem "normais".
O resultado? Uma menina que vira uma adolescente brilhante. Que vira uma adulta competente. Que vira uma profissional de alta performance. Que vira uma mulher exausta que não entende por que, com tudo que conquistou, ainda se sente tão fora do lugar.
A camuflagem funciona. Esse é exatamente o problema.
Por que o custo explode depois dos 35
Há uma razão pela qual tantas mulheres chegam ao consultório entre os 35 e os 50 anos com a sensação de que "algo quebrou". Não é fraqueza. É física.
Durante décadas, o sistema nervoso dessas mulheres operou em sobrecarga constante — usando estratégias compensatórias que exigem um esforço cognitivo e emocional imenso. Enquanto havia adrenalina suficiente, enquanto os desafios eram novos e estimulantes, enquanto a estrutura externa (escola, faculdade, primeiros empregos) organizava o tempo por elas, o sistema se sustentava.
Depois dos 35, as variáveis mudam. A estrutura externa diminui — você é a chefe agora, você define os próprios prazos, você gerencia a própria vida. A adrenalina dos primeiros anos de carreira se estabiliza. E, para muitas mulheres, somam-se as demandas da maternidade, do relacionamento, do cuidado com pais que envelhecem. O sistema nervoso, que já operava no limite, começa a falhar de formas que antes conseguia esconder.
A isso se soma um fator biológico que a pesquisa começa a mapear com mais precisão: as flutuações hormonais que marcam a perimenopausa afetam diretamente os níveis de dopamina e estrogênio — neurotransmissores centrais na regulação da atenção. O TDAH em mulheres adultas não diagnosticado frequentemente relatam uma piora significativa dos sintomas nessa fase, o que as leva, finalmente, a buscar ajuda. Não porque o TDAH piorou — mas porque o sistema de compensação chegou ao seu limite.
O burnout que chega nessa fase não é sinal de fraqueza. É o resultado previsível de décadas de esforço extraordinário para parecer ordinária.
Por que o diagnóstico demora tanto
Existem pelo menos três camadas que explicam o atraso diagnóstico em mulheres de alta performance.
A primeira é estrutural: os critérios diagnósticos do TDAH foram historicamente desenvolvidos com base em estudos feitos majoritariamente com meninos. Os sintomas descritos no DSM refletem, em grande parte, a apresentação masculina da condição. Isso significa que muitas mulheres simplesmente não se encaixam no perfil clínico clássico — e passam despercebidas em triagens.
A segunda é clínica: os sintomas do TDAH em mulheres adultas se sobrepõem com frequência a outras condições — ansiedade, depressão, transtorno de humor. Não é raro que uma mulher receba dois ou três diagnósticos ao longo da vida antes que alguém considere o TDAH. Ela é tratada para a ansiedade, mas a ansiedade é, em parte, consequência de viver com um sistema nervoso não compreendido. O tratamento alivia, mas não resolve.
A terceira camada é a mais silenciosa: a própria mulher não se reconhece no diagnóstico. Ela foi bem na escola. Ela tem uma carreira sólida. Ela não "parece" ter TDAH. E quando alguém levanta essa possibilidade, a primeira reação costuma ser resistência — seguida, às vezes, de um alívio tão profundo que ela não consegue nomear de imediato.
Porque finalmente existe uma explicação. Não uma desculpa — uma explicação.
O que acontece depois do diagnóstico: onde a psicoterapia existencial entra
Receber um diagnóstico tardio de TDAH na vida adulta é uma experiência complexa. Há alívio, sim. Mas há também luto — pelo tempo perdido tentando ser quem não se era, pelas relações desgastadas, pelas oportunidades que escaparam enquanto a energia estava toda sendo usada para compensar.
É aqui que a abordagem existencial fenomenológica tem algo singular a oferecer.
A psicologia existencial não trata o diagnóstico como um rótulo a ser gerenciado. Ela o trata como um convite para uma pergunta mais profunda: quem você é, de fato, quando para de se esconder? Que escolhas você fez a partir de uma imagem de si mesma que nunca foi completamente verdadeira? O que você quer construir agora que tem mais informação sobre como você funciona?
Isso não significa ignorar a neurobiologia — pelo contrário. Compreender como o seu sistema nervoso opera é o ponto de partida para deixar de lutar contra ele e começar a trabalhar com ele. Mas o processo psicoterapêutico vai além da psicoeducação. Ele envolve reconstruir a narrativa que você tem sobre si mesma. Dissolver a vergonha que se acumulou em décadas de "não ser suficiente". E habitar, talvez pela primeira vez, uma versão de você que não precisa se justificar o tempo todo.
A integração com abordagens complementares — como a Nutrição Funcional ou Ayurveda, onde posso sugerir atitudes ou alimentos que agem no impacto do eixo intestino-cérebro na regulação da atenção, ou os Florais de Bach, que atuam nos padrões emocionais que sustentam a camuflagem — permite uma visão do ser humano que vai além do sintoma. Não se trata de substituir o tratamento médico ou nutricional, quando ele é indicado, mas de ampliar o olhar sobre o que significa viver bem com um sistema nervoso que funciona de forma diferente.
Uma última coisa antes de você fechar essa página
Se você chegou até aqui, provavelmente não foi por acaso.
Talvez você tenha se reconhecido em algum parágrafo. Talvez tenha sentido aquela mistura de "isso faz sentido" com "mas será que é comigo mesmo?". Talvez tenha pensado em alguém próximo — ou em você mesma, lá atrás, tentando entender por que tudo parecia mais difícil do que deveria.
O que eu quero que você leve desse artigo é simples: a dificuldade que você sentiu não era frescura. A exaustão não é falta de garra. E o fato de ter chegado tão longe apesar de tudo isso não é prova de que você não precisa de suporte — é prova de quanto você foi capaz de carregar sozinha.
Você não precisa continuar assim.
Se você passou a vida inteira aprendendo a parecer quem não era — e está começando a suspeitar que existe uma versão sua que ainda não conhece direito — agende uma sessão de avaliação.
Não vou te oferecer um rótulo. Não vou te encaixar em uma categoria. Mas sim, finalmente, oferecer um espaço onde sua forma de funcionar seja compreendida — e onde você possa começar a construir uma vida que caiba em você, e não o contrário.
[Agendar sessão de avaliação]
Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação clínica individualizada. Se você suspeita de TDAH ou de qualquer outra condição, procure um profissional de saúde qualificado.
Andréa Araújo
Psicóloga Clínica | 38 anos de experiência
Abordagem Existencial Integrativa | Atendimento Online para Adultos e Casais
Perguntas Frequentes:
TDAH em mulheres tem cura?
O TDAH é uma condição neurobiológica — não tem cura no sentido convencional da palavra, mas tem manejo. E manejo, quando feito de forma adequada e integrada, transforma profundamente a qualidade de vida. Muitas mulheres que chegam ao diagnóstico na vida adulta relatam que, após compreenderem como seu sistema nervoso funciona e desenvolverem estratégias alinhadas a essa forma de funcionar, passam a viver com muito mais leveza, clareza e autenticidade. O objetivo não é eliminar o TDAH — é parar de lutar contra ele.
Como saber se tenho TDAH?
O diagnóstico de TDAH é clínico e deve ser feito por um profissional de saúde qualificado — psicólogo ou psiquiatra. Não existe exame de sangue ou teste online que confirme a condição. O que a avaliação clínica busca é compreender o histórico da pessoa, os padrões de funcionamento ao longo da vida e o impacto desses padrões nas diferentes áreas — trabalho, relacionamentos, autocuidado. Se você se reconheceu em algum ponto desse artigo, esse reconhecimento já é um dado importante. O próximo passo é levar essa experiência para um espaço clínico seguro.
TDAH e ansiedade são a mesma coisa?
Não — mas elas coexistem com muita frequência, especialmente em mulheres. A ansiedade pode ser uma consequência de anos vivendo com um sistema nervoso não compreendido: o esforço constante de compensar, de não errar, de parecer "normal" gera um estado de alerta crônico que se manifesta como ansiedade. Por isso, muitas mulheres com TDAH não diagnosticado recebem primeiro um diagnóstico de transtorno de ansiedade. Tratar apenas a ansiedade, nesses casos, alivia — mas não resolve. A avaliação cuidadosa do histórico completo é o que permite distinguir o que é o quê.
Por que minha concentração piorou depois dos 40?
Essa é uma das queixas mais comuns entre mulheres que chegam ao consultório nessa fase da vida — e tem uma explicação neurobiológica. As flutuações hormonais da perimenopausa afetam diretamente os níveis de estrogênio e dopamina, neurotransmissores essenciais para a regulação da atenção. Em mulheres com TDAH não diagnosticado, esse processo pode intensificar sintomas que antes eram compensados com mais facilidade. Não é que você ficou menos capaz — é que o sistema que segurava tudo chegou ao seu limite natural.
TDAH afeta só a concentração?
Essa é uma das maiores simplificações sobre o tema. O TDAH afeta a função executiva como um todo — que inclui não apenas atenção, mas regulação emocional, memória de trabalho, senso de tempo, capacidade de iniciar tarefas, tolerância à frustração e muito mais. Em mulheres adultas de alta performance, isso frequentemente se manifesta como hipersensibilidade emocional, dificuldade de descansar de verdade, sensação de estar sempre "atrasada em relação à vida" e um perfeccionismo que funciona como sistema de controle — não como traço de personalidade.


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