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Quando Adler encontra o Existencialismo: um diálogo sobre sentido, pertencimento e liberdade

Atualizado: há 4 dias


Duas silhuetas humanas vendo um mesmo cenário de formas diferentes em diálogo, com formas geométricas sugerindo conexão. Transmite o "encontro" teórico e humano.

O encontro improvável

Alfred Adler e os filósofos existencialistas raramente dividem espaço nas mesmas prateleiras teóricas. Adler, dissidente da psicanálise freudiana, construiu sua psicologia individual sobre pilares como sentimento de comunidade, teleologia e compensação criativa. Os existencialistas — de Kierkegaard a Sartre, passando por Heidegger e Frankl — centraram-se na angústia da liberdade, na responsabilidade radical pela própria existência e na busca irrefreável por sentido. À primeira vista, parecem tradições distantes. Mas na clínica contemporânea, especialmente quando trabalhamos com o esgotamento profundo de quem alcançou o topo e se pergunta "e agora?", essas abordagens conversam de forma surpreendentemente íntima.


Vivemos uma época marcada por comparação constante, sensação de inadequação, hiperprodutividade, desconexão social e vazio de sentido. Nesse cenário, a união entre Adler e o Existencialismo oferece uma resposta contemporânea urgente: pertencimento com autenticidade, propósito com liberdade, coragem com humanidade. Ambas as abordagens rejeitam determinismos rígidos, colocam o ser humano como agente de sua própria trajetória e reconhecem que sofrimento sem sentido é insuportável — mas sofrimento com propósito pode ser transformador.


Adler: sentimento de comunidade e a busca por significado

A psicologia individual de Alfred Adler emerge de uma ruptura: ao discordar de Freud sobre a centralidade do sexual e do inconsciente, Adler propõe que o motor humano fundamental é a busca por pertencimento e significado. Para ele, nascemos com um sentimento de inferioridade inevitável — somos, afinal, criaturas dependentes por anos. Mas essa inferioridade não é patológica; é o combustível para o desenvolvimento. A forma como compensamos essa sensação inicial define nosso estilo de vida, nossa maneira única de ser-no-mundo.


O conceito de Gemeinschaftsgefühl (sentimento de comunidade) é central: somos seres sociais, e nossa saúde psíquica depende de nos sentirmos parte de algo maior que nós mesmos. Quando esse sentimento se perde — pela competição destrutiva, pelo individualismo exacerbado, pela comparação constante —, surge o adoecimento. O burnout, nesse sentido, não é apenas exaustão; é a ruptura do vínculo com a comunidade, com o propósito compartilhado, com o sentido de contribuição.


Adler também introduz uma teleologia: não somos determinados pelo passado, mas puxados pelo futuro, por nossas metas e intenções. Esse é um dos pontos onde ele já antecipa questões existenciais: a vida se organiza não pelo que foi, mas pelo que pode vir a ser. E essa orientação futura exige coragem — coragem para errar, para ser imperfeito, para pertencer mesmo sendo vulnerável.


Existencialismo: liberdade, responsabilidade e autenticidade

Se Adler nos convida ao pertencimento e à coragem de ser imperfeito, o Existencialismo nos confronta com uma verdade incômoda: somos radicalmente livres — e essa liberdade é, simultaneamente, nossa maior possibilidade e nossa maior angústia. Kierkegaard já alertava sobre o desespero de quem se perde em papéis sociais, esquecendo-se de si mesmo. Heidegger falava do ser-lançado (Geworfenheit): somos jogados na existência sem manual de instruções, e cabe a nós criar sentido nesse lançamento.


Sartre levou isso ao limite: "estamos condenados a ser livres". Não há essência prévia, não há destino fixo. Somos o que fazemos de nós mesmos — e isso traz uma responsabilidade insuportável. Porque se tudo é escolha, até a omissão é uma escolha. E quando essa liberdade é vivida de forma inautêntica — seguindo expectativas externas, performando papéis, acumulando conquistas vazias —, surge o que os existencialistas chamam de má-fé: a tentativa de fugir da própria liberdade.


Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz e fundador da logoterapia, trouxe uma síntese poderosa: a liberdade de escolher a própria atitude diante do sofrimento inevitável. Mesmo quando não podemos mudar as circunstâncias, podemos mudar o sentido que atribuímos a elas. E é justamente nessa busca por sentido — não por prazer, não por sucesso, mas por algo que nos transcenda — que reside a saúde psíquica.


O Existencialismo também nos lembra que somos ser-com-outros (Mitsein, Heidegger): a autenticidade não é solidão narcísica, mas a coragem de ser quem se é diante do outro, mesmo correndo o risco da rejeição. É aqui que a ponte com Adler se fortalece: pertencer de verdade exige autenticidade; e autenticidade só faz sentido em comunidade.


Os pontos de encontro: onde as abordagens se complementam

É no diálogo entre Adler e o Existencialismo que emerge uma compreensão mais completa do sofrimento contemporâneo — e das possibilidades de transformação.


  • Sentimento de comunidade ↔ Ser-com-outros

O Gemeinschaftsgefühl adleriano encontra eco no Mitsein heideggeriano. Ambos reconhecem que a existência humana é fundamentalmente relacional. Mas enquanto Adler enfatiza o pertencimento como base da saúde psíquica, o Existencialismo adiciona uma camada: esse pertencimento precisa ser autêntico. Não basta estar entre outros; é preciso ser quem se é diante dos outros. Na era da hiperprodutividade e da comparação constante, muitos pertencem apenas performaticamente — acumulam conexões superficiais, mas experimentam profunda solidão.


  • Teleologia adleriana ↔ Projeto existencial

Adler nos diz que somos puxados pelo futuro, por nossas metas. Sartre complementa: somos nosso projeto, aquilo que escolhemos vir a ser. Mas há uma diferença sutil e crucial. Para Adler, a direção importa mais que a origem; para o Existencialismo, a escolha dessa direção é inescapável e angustiante. Quando alguém constrói uma carreira brilhante seguindo expectativas externas, pode alcançar todas as metas — e ainda assim experimentar vazio. Porque o projeto não foi escolhido livremente; foi herdado, imposto, performado.


  • Estilo de vida ↔ Autenticidade

O estilo de vida adleriano — nossa maneira única de compensar a inferioridade e buscar significado — dialoga diretamente com a autenticidade existencial. Mas aqui surge uma pergunta clínica essencial: esse estilo de vida foi criado com coragem ou com medo? Com liberdade ou com má-fé? O executivo que trabalha 14 horas por dia pode estar compensando criativamente — ou fugindo de si mesmo.


  • Compensação criativa ↔ Liberdade diante do sofrimento

Adler via na compensação uma força vital: transformamos fragilidade em potência. Frankl levou isso adiante: mesmo quando não podemos mudar o sofrimento, podemos escolher nosso posicionamento diante dele. Ambos rejeitam o determinismo; ambos apostam na capacidade humana de ressignificar. E ambos exigem coragem — a coragem adleriana de ser imperfeito e a coragem existencial de assumir a própria liberdade.


Na prática clínica: integrando Adler e Existencialismo no tratamento do Burnout

O burnout não é apenas exaustão. É uma crise existencial disfarçada de problema de gestão de tempo. Quando alguém chega ao consultório relatando fadiga crônica, insônia, irritabilidade e desengajamento profundo, raramente está trazendo apenas sintomas — está trazendo uma ruptura de sentido, uma desconexão do Gemeinschaftsgefühl e uma vida construída em má-fé.


Minha abordagem integrativa — fenomenologia, neurobiologia e impacto existencial — permite ler o burnout em camadas. Fenomenologicamente, investigo como essa pessoa experiencia seu mundo: o trabalho virou performance vazia? As relações viraram transações? O futuro virou apenas uma lista interminável de entregas? Neurobiologicamente, reconheço que a hiperprodutividade crônica desregula eixos hormonais, prejudica o sono, inflama o organismo — o corpo grita o que a mente ainda tenta negar. Existencialmente, questiono: onde ficou a liberdade? Quando foi a última vez que essa pessoa escolheu algo por sentido, e não por expectativa externa?


Caso ilustrativo: Mariana (paciente — divulgação com autorização)

Mariana, 42 anos, executiva de multinacional, chegou relatando "cansaço extremo que não passa com férias". Nas primeiras sessões, descrevia sua rotina com orgulho — reuniões internacionais, viagens, reconhecimento da diretoria. Mas quando perguntei "e o que isso significa para você?", houve um silêncio longo. Ela não sabia. Havia construído uma carreira impecável compensando o sentimento de inferioridade da infância (Adler), mas jamais havia escolhido livremente esse caminho (Existencialismo). Trabalhava 14 horas por dia, mas não pertencia a nada — nem à empresa, nem à família, nem a si mesma.


O trabalho terapêutico envolveu:


Reconectar com o Gemeinschaftsgefühl: onde Mariana se sentia parte de algo maior? Descobrimos que era em um projeto voluntário que ela abandonara há anos "por falta de tempo". O tempo existia — mas a coragem de priorizar o que importava, não.

Confrontar a má-fé: Mariana vivia o projeto de vida que seus pais sonharam, que a sociedade valoriza, que o LinkedIn aplaude. Mas não era dela. Assumir a liberdade de redesenhar esse projeto gerou angústia — e, paradoxalmente, alívio.

Resgatar a teleologia autêntica: não abandonar a carreira, mas ressignificá-la. Mariana não precisava parar de trabalhar; precisava trabalhar a partir de escolhas conscientes, não de compensações automáticas. No caso dela, a ressignificação veio pela maternidade: percebeu que seu trabalho intenso poderia ter sentido como provisão autêntica — não culpa ou ausência, mas a construção de condições reais para que seus filhos pudessem ser empreendedores, livres, autônomos. O burnout começou a ceder quando ela passou a trabalhar para algo, e não apenas por medo de parar.


Caso ilustrativo: Roberto (paciente — divulgação com autorização)

Roberto, 38 anos, empreendedor de tecnologia, descrevia sua vida como "uma corrida sem linha de chegada". Cada meta alcançada gerava a próxima, cada conquista revelava uma inadequação nova. Ele comparava-se constantemente — com colegas, com influencers, com versões idealizadas de si mesmo. O burnout de Roberto era neurobiológico (insônia severa, taquicardia, gastrite) e existencial (vazio de sentido mascarado por hiperatividade).


Integramos Adler e Existencialismo assim:


Identificar o estilo de vida compensatório: Roberto construiu uma identidade inteira sobre "ser o melhor". Qualquer imperfeição era insuportável. Mas essa compensação, que começou criativa na adolescência, virou prisão na vida adulta.

Enfrentar a liberdade radical: Roberto acreditava que precisava trabalhar daquele jeito. Confrontá-lo com a ideia de que ele escolhia aquilo — mesmo inconscientemente — foi doloroso. Mas abriu espaço para novas escolhas.

Reconstruir o sentimento de comunidade autêntico: Roberto estava cercado de pessoas, mas profundamente só. Aprendeu a diferenciar rede de contatos de comunidade real. E isso exigiu vulnerabilidade — a coragem adleriana de ser imperfeito diante do outro.


Um convite à reconexão

Quando Adler encontra o Existencialismo, não é teoria que se encontra — é vida. É a compreensão de que pertencer de verdade exige autenticidade, e que autenticidade sem comunidade é solidão disfarçada de liberdade. É reconhecer que podemos compensar criativamente nossas fragilidades, mas só quando essa compensação nasce de escolha consciente, não de fuga. É aceitar que a angústia da liberdade é o preço da dignidade humana — e que esse preço vale a pena.


O burnout contemporâneo não é falha moral, fraqueza ou falta de resiliência. É o sintoma de uma vida construída em má-fé, de um pertencimento performático, de um projeto existencial herdado e nunca questionado. E é justamente por isso que a cura não vem de mais produtividade, mais técnicas de gestão de tempo ou mais autocontrole. A cura vem da coragem de parar, olhar para dentro e perguntar: esta vida é minha? Ou estou vivendo o roteiro de outra pessoa?


Adler nos ensina a coragem de ser imperfeito. O Existencialismo nos confronta com a responsabilidade de escolher. Juntos, oferecem um caminho: reconectar sentido e comunidade, propósito e liberdade, humanidade e coragem. Não é um caminho fácil — mas é o único que leva de volta para casa.



E você? Está vivendo seu próprio projeto — ou interpretando o papel que lhe foi designado?

Se essa reflexão ressoou, talvez seja hora de conversar. A entrevista inicial de psicoterapia é o primeiro passo para reconectar sentido, pertencimento e autenticidade.




Andréa Araújo

Psicóloga Clínica | 38 anos de experiência

Abordagem Existencial Integrativa | Atendimento Online para Adultos e Casais

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