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Burnout não é só cansaço: uma leitura existencial de um colapso de sentido.

Atualizado: há 4 dias

Vista do deserto, com uma cadeira vazia entre muros representando um colapso de sentido

Descubra uma abordagem profunda e existencial sobre o Burnout. Mais do que cansaço, trata-se de uma crise de sentido, liberdade e projeto de vida. Uma leitura clínica para quem busca transformação genuína.


Introdução


Vivemos em uma era marcada por produtividade, aceleração e performance contínua. Nesse cenário, o termo Burnout tornou-se recorrente, muitas vezes reduzido a um sinônimo de exaustão ou estresse crônico relacionado ao trabalho. No entanto, essa leitura superficial não dá conta da complexidade do fenômeno que se apresenta na clínica.


A partir de uma perspectiva existencial fenomenológica, o Burnout não é apenas um esgotamento físico ou mental: é um colapso de sentido, uma crise profunda no modo como o sujeito se relaciona com sua liberdade, responsabilidade e projeto de vida. É o momento em que a estrutura que sustentava o existir se estilhaça, revelando não apenas cansaço, mas uma falência no modo de habitar o mundo.


Este artigo propõe uma leitura ampliada e ontológica do Burnout, voltada àqueles que buscam mais do que alívio sintomático — mas uma compreensão profunda de si mesmos e de sua existência. É também um convite à reflexão para quem sente que "algo não vai bem", mesmo quando todos os indicadores externos apontam sucesso.


1. O que é Burnout? Para além da definição clínica


A definição tradicional de Burnout, segundo a Organização Mundial da Saúde, refere-se a uma síndrome resultante de estresse crônico no trabalho que não foi adequadamente gerenciado. Seus principais sintomas incluem exaustão emocional, despersonalização e redução da realização pessoal.


Contudo, essa definição, embora útil em contextos diagnósticos e epidemiológicos, é insuficiente quando nos colocamos diante do sujeito que sofre. Ela não contempla a experiência vivida, os significados que o adoecimento carrega, nem a ruptura existencial que ele representa. Trata o fenômeno como um problema a ser resolvido, quando na verdade trata-se de uma crise a ser compreendida.


Na clínica existencial, não perguntamos apenas "o que você sente?", mas "como você está sendo no mundo?", "que mundo se apresenta a você agora?", "onde você se perdeu de si?". São perguntas que abrem caminho para uma investigação que vai além do sintoma, alcançando a estrutura existencial que o sustenta.


2. Burnout como crise existencial: quando o mundo perde o chão


Sob a ótica fenomenológico-existencial, o Burnout é compreendido como uma ruptura no modo de ser-no-mundo. O sujeito, antes engajado em projetos, metas e relações, começa a experimentar um esvaziamento radical do sentido. O que antes mobilizava, agora se torna árido, automático, sem alma. A vida continua, mas como se fosse vivida por outro, de fora, mecanicamente.


O que observo em 38 anos de atuação clínica é que o esgotamento raramente se limita ao trabalho. Ele se infiltra em todas as dimensões da existência: na relação com filhos adultos excessivamente dependentes, com cônjuges que demandam presença sem reciprocidade, com amizades que se tornaram protocolares. O Burnout é, portanto, um adoecimento do modo de estar-com-os-outros e de estar consigo mesmo.


Essa crise não é meramente emocional, mas ontológica. O sujeito se vê diante de sua liberdade radical e da angústia que ela carrega. Emergem perguntas como: "Por que continuo fazendo o que faço?", "Para quem é essa vida que estou levando?", "Onde me perdi de mim?", "Em algum momento alguém vai reconhecer essa luta?". São questões que não pedem respostas rápidas, mas escuta sustentada e tempo para serem habitadas.


3. A lógica do desempenho e a alienação de si


A sociedade contemporânea impõe uma lógica de desempenho que exige constante superação, produtividade e visibilidade. Nesse contexto, o sujeito se torna um "empreendedor de si mesmo", gerenciando sua imagem real e virtual, seu tempo e até suas emoções como se fossem ativos de mercado. A própria subjetividade é colonizada pela lógica da eficiência.


Esse modo de vida, embora inicialmente sedutor e socialmente valorizado, frequentemente leva à alienação de si. O sujeito passa a viver em função de expectativas externas, desconectando-se de seus valores mais autênticos, de seus desejos verdadeiros e de seus limites humanos. Ele se torna estrangeiro de si mesmo, habitando uma vida que não reconhece como sua.


O Burnout emerge, então, como um grito do corpo e da existência: um pedido urgente de pausa, de escuta, de reconexão com o que é essencial. Não é um fracasso, mas um limite sendo denunciado. É o momento em que a vida que se construiu não cabe mais no ser que se é.


4. Burnout e responsabilidade existencial: o peso de escolhas não feitas


Na perspectiva existencial, todo sofrimento carrega uma dimensão de responsabilidade. Não no sentido de culpa ou julgamento moral, mas de implicação existencial. O Burnout pode ser o resultado de uma série de não escolhas, de adiamentos sucessivos, de submissões silenciosas a contextos que não ressoam com a verdade interna do sujeito.


Muitas vezes, o adoecimento surge quando o sujeito se vê aprisionado em um projeto de vida que não é mais seu — ou talvez nunca tenha sido. São escolhas que foram feitas por segurança, aprovação, obrigação ou medo, mas que agora cobram seu preço em forma de vazio e exaustão.


A clínica existencial, nesse caso, não é um espaço de "cura rápida" ou de adaptação ao que não faz sentido. É um espaço de reconhecimento pessoal, de retomada da autoria sobre a própria existência, de coragem para olhar o que foi evitado. É um processo de reconstrução de sentido que exige tempo, presença e honestidade radical consigo mesmo.


5. O papel da clínica existencial: escuta, presença e investigação do ser


Diferente de abordagens protocoladas ou focadas exclusivamente em sintomas e funcionalidade, a psicoterapia existencial fenomenológica propõe uma escuta radical. O psicólogo não se posiciona como especialista que "sabe o que o outro deve fazer", mas como alguém que caminha junto, ajudando o sujeito a desvelar seu próprio modo de ser-no-mundo.


Trata-se de um trabalho profundo, que exige coragem de ambas as partes, tempo para maturação e presença genuína. Não se trata de "voltar a ser produtivo" ou de "retornar ao normal", mas de reconstruir um modo de viver que faça sentido, que seja habitável, que seja autêntico. Para muitos, o Burnout marca o início de um processo de transformação existencial — doloroso, sim, mas também potencialmente libertador.


Nesse processo terapêutico, investigamos juntos:


  • Como você tem escolhido?

  • O que tem evitado escolher?

  • Que liberdades você abdica?

  • Que responsabilidades você carrega que não são suas?

  • Onde está sua voz nessa vida que você vive?


São perguntas que abrem espaço para que o sujeito se reencontre — não como era antes, mas como pode vir a ser.


Conclusão: Burnout como oportunidade de reencontro consigo


Embora doloroso e muitas vezes devastador, o Burnout pode ser compreendido como um chamado existencial. Um convite para interromper o automatismo, questionar o rumo da vida e reavaliar escolhas fundamentais. É um momento-limite que pode abrir espaço para uma vida mais autêntica, mais coerente com quem se é, mais alinhada com o que verdadeiramente importa.


A psicoterapia existencial não oferece respostas prontas nem promessas de felicidade. O que ela oferece é algo mais fundamental: um espaço sustentado e seguro para que o sujeito encontre suas próprias respostas, reconheça sua própria verdade e reencontre sua potência de viver. E, nesse processo delicado e corajoso, talvez descubra que o adoecimento era, paradoxalmente, o início de um caminho de volta para si.


Convite final


Se você se reconheceu nesta leitura e busca um acompanhamento terapêutico que vá além do sintomático, que respeite sua singularidade e que sustente a profundidade necessária para uma transformação genuína, convido você a conhecer meu trabalho.


Será um privilégio caminhar ao seu lado nesse processo de reencontro com o que é essencialmente seu.





Andréa Araújo

Psicóloga Clínica | 38 anos de experiência

Abordagem Existencial Integrativa | Atendimento Online para Adultos e Casais


Perguntas Frequentes:


O que é Burnout? É só cansaço extremo?

Não. O Burnout vai muito além de “estar muito cansado”. Na clínica, ele se manifesta como um esgotamento emocional, físico e mental acompanhado, muitas vezes, de uma sensação de vazio, de perda de sentido e de desconexão de si mesmo.

Não é apenas sobre ter muitas tarefas, mas sobre viver de um modo que, aos poucos, deixa de fazer sentido para quem você é.

Como saber se estou passando por um Burnout?

Alguns sinais frequentes incluem:

  • Sensação de estar no limite o tempo todo

  • Dificuldade de descansar mesmo quando há tempo livre

  • Perda de interesse por coisas que antes faziam sentido

  • Irritabilidade, cinismo, sensação de “estar no automático”

  • Corpo dando sinais: insônia, dores, tensão constante, adoecimentos frequentes


Um critério importante: não é só cansaço que melhora com um fim de semana de descanso. É algo que vai corroendo, silenciosamente, a relação consigo, com o trabalho e com a própria vida.

Qual é a diferença entre Burnout e estresse?

O estresse é uma resposta do organismo a demandas específicas (um prazo, uma fase difícil). Ele vem e vai, de acordo com a situação.

No Burnout, há um processo mais profundo e prolongado:

  • O estresse torna-se crônico

  • A pessoa não se reconhece mais na vida que leva

  • A sensação é de colapso de sentido, não só de excesso de tarefas

Em termos existenciais: o estresse fala de pressão. O Burnout fala de um modo de existir que se tornou insustentável.


O Burnout é sempre causado pelo trabalho?

O trabalho costuma ser o cenário mais visível do Burnout, mas não é a única causa. Muitas vezes, o quadro vem acompanhado de crises conjugais e familiares. Em muitos casos, ele é o pano de fundo onde se manifestam:

  • Padrões de funcionamento (ex.: perfeccionismo, autoexigência extrema)

  • Dificuldade em colocar limites

  • Necessidade constante de corresponder a expectativas externas

  • Medo de frustração ou rejeição

Do ponto de vista existencial, o Burnout é menos sobre “um emprego ruim” e mais sobre como a pessoa se relaciona consigo, com o outro e com o mundo dentro daquele contexto.

Burnout é fraqueza? Falta de resiliência?

Não. Burnout não é “frescura”, nem “falta de força”, nem sinal de que a pessoa é fraca.

Muitas vezes, ele acontece justamente em pessoas que:

  • Sustentaram demais

  • Aguentaram caladas por muito tempo

  • Assumiram responsabilidades que não eram só delas

  • Foram além dos próprios limites repetidas vezes

O Burnout não é um atestado de fraqueza, mas um sinal de que algo precisa ser profundamente revisto.

Como a psicoterapia pode ajudar em casos de Burnout?

Na abordagem integrativa com base existencial, a psicoterapia não se limita a “reduzir sintomas”.

O trabalho inclui:

  • Escuta profunda da história de vida e do contexto atual, permitindo que a pessoa também se ouça.

  • Compreensão de como a pessoa foi se afastando de si ao longo do tempo, favorecendo reflexão e reconhecimento desses movimentos.

  • Identificação de padrões de funcionamento (autoexigência, culpabilização, dificuldade em dizer não etc.).

  • Reconstrução de sentido: o que ainda faz sentido? O que já não cabe mais?

Mais do que “voltar ao normal”, a psicoterapia pode ser o espaço para criar um novo modo de se relacionar consigo, com o trabalho e com o mundo.

O que você quer dizer com Burnout como “crise de sentido”?

Chamar o Burnout de crise de sentido significa olhar para além dos sintomas e perguntar:

  • “A vida que eu estou levando ainda faz sentido para mim?”

  • “Em que momento eu me perdi de mim?”

A crise de sentido não é apenas um problema; é também um chamado. Um momento em que aquilo que foi sendo empurrado para debaixo do tapete — desejos, limites, dores, verdades — começa a pedir lugar.

A clínica existencial não vê o Burnout só como algo a ser “apagado”, mas como uma possibilidade de reorientação profunda do modo de viver.

Dá para sair de um Burnout sem mudar nada na vida prática?

Alívio parcial de sintomas, às vezes, sim (com descanso, remédios quando indicados, afastamento temporário).

Mas uma transformação sustentável geralmente pede:

  • Revisão de limites

  • Mudança na forma de se colocar nas relações

  • Questionamento de crenças (“eu só tenho valor se produzo”, “não posso decepcionar ninguém” etc.)

Em alguns casos, mudanças concretas no trabalho, rotina, prioridades

Na perspectiva existencial, não há cuidado verdadeiro sem responsabilidade sobre o próprio modo de viver. Não se trata de culpa, e sim de autoria.




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