Quando a vida parece perfeita, mas você se sente vazio
- Andrea Araujo
- 3 de fev.
- 5 min de leitura
Atualizado: 6 de fev.
Vazio existencial: quando a vida está em ordem, mas não faz sentido.

Você olha de fora e está tudo "certo".
Trabalho organizado. Contas em dia. Rotina funcionando. As pessoas confiam em você, elogiam sua maturidade, responsabilidade, competência. Por fora, a vida parece estar no lugar.
Por dentro… algo não responde mais.
Não é necessariamente tristeza. Não é um grande colapso. É um silêncio estranho, um esvaziamento discreto, uma sensação de estar vivendo no automático — como se a vida fosse de outra pessoa e você estivesse apenas cumprindo funções.
Quando a vida está em ordem, mas você sente um vazio existencial
Por que isso acontece?
Existe uma diferença profunda entre funcionar e sentir sentido.
Funcionar é cumprir papéis, dar conta das demandas, seguir a rotina, ser "a pessoa confiável". É performar competência, sustentar expectativas, manter tudo sob controle.
Sentir sentido é experimentar a vida por dentro: é saber por que se está vivendo assim, é sentir-se autora ou autor das próprias escolhas, é perceber que a sua história conversa com os seus valores. É existir com presença, não apenas com eficiência.
É possível passar anos funcionando muito bem — alcançando metas, sendo reconhecida, mantendo aparências impecáveis — e, ainda assim, sentir que algo essencial se perdeu no caminho.
A vida vai ficando mecânica, repetitiva, sem cor, sem expressão. Como se algo vital tivesse sido adiado para "depois". Carreira, responsabilidades, família, demandas urgentes… e, muitas vezes, tudo isso é importante mesmo. O problema é quando esse "depois" dura tempo demais.
É aí que o vazio começa a aparecer.
Quando a vida está em ordem, mas você sente um vazio existencial
O vazio que não tem nome (e por isso assusta)
O vazio existencial assusta justamente porque ele não vem com um nome claro.
Não é uma tristeza específica. Não é um medo definido. Não é, necessariamente, um diagnóstico de depressão. É uma insatisfação contínua, difusa, difícil de traduzir em palavras. Um desconforto que acompanha o dia a dia, mesmo quando nada "ruim" parece estar acontecendo.
Viktor Frankl, neuropsiquiatra austríaco e fundador da logoterapia, descreveu esse fenômeno como vazio existencial: a ausência de sentido em uma vida que pode estar, objetivamente, funcionando. Ele dizia que o ser humano pode suportar quase qualquer sofrimento — desde que encontre para quê suportá-lo. O problema não é a dor; é a dor sem propósito.
Por não ter nome claro, esse vazio costuma ser ignorado. Muitas pessoas pensam: "Deve ser só cansaço. É só uma fase. Estou sendo ingrata, tenho tudo, não posso reclamar. "
Outras se ocupam ainda mais: mais trabalho, mais compromissos, mais telas, mais distrações. Mas o vazio não desaparece quando é evitado. Às vezes, ele até se torna mais silencioso — e, justamente por isso, mais cansativo.
Por que o vazio existencial com a vida em ordem traz tanta culpa?
A culpa de sofrer quando "está tudo bem"
Na tentativa solitária de entender o que sentem, muitas pessoas encontram a culpa.
Culpa por não estar feliz. Culpa por sofrer sem um "motivo justificável". Culpa por ter uma vida considerada boa e, ainda assim, sentir que algo não vai bem.
Vivemos numa cultura da performance, da comparação constante e da "gratidão obrigatória". Nela, sentir-se mal em meio a uma vida aparentemente estável é interpretado como fraqueza, drama, falta de fé, falta de gratidão. Como se o sofrimento só fosse legítimo quando há uma grande perda, um caos visível, um
motivo claro.
Isso isola.
Em vez de escutar o que se passa internamente, a pessoa começa a se censurar. Passa a acreditar que não "tem direito" de sentir o que sente. E quanto mais se censura, mais se distancia de si mesma — e mais o vazio cresce.
Vazio existencial não é fraqueza: é um sinal de mudança
Uma outra perspectiva: o vazio como sinal, não como falha
Na perspectiva existencial e fenomenológica, esse vazio não é visto como fracasso, ingratidão ou defeito de caráter.
Ele pode ser entendido como:
• um sinal de que algo precisa ser revisto
• um alerta de que a forma de viver já não acompanha quem você se tornou
• um convite para olhar novamente para escolhas feitas em outros momentos da sua vida
Crises assim não significam, necessariamente, colapso. Muitas vezes, significam transição. É como se a sua consciência tivesse amadurecido e começasse a pedir espaço. Ela já não aceita viver apenas no automático, repetindo rotinas e expectativas que um dia fizeram sentido, mas hoje talvez já não façam mais.
O vazio é uma linguagem. Ele não vem para destruir — vem para comunicar que há algo em você que pede reconhecimento, atualização, reconexão.
Por que manter tudo "sob controle" pode aumentar o vazio?
Ignorar o vazio também é uma forma de controle silencioso.
Continuar funcionando, manter-se sempre ocupada, evitar silêncios, não criar espaços de pausa — tudo isso ajuda a não entrar em contato com perguntas mais profundas, como:
"É isso mesmo que eu quero para a minha vida?"
"De quem é esse projeto que estou carregando?"
"Quais escolhas ainda fazem sentido para quem eu sou hoje?"
O problema é o custo.
A vida segue organizada por fora, mas emocionalmente empobrecida por dentro. As relações se tornam mais superficiais. As conversas perdem profundidade. As decisões ficam confusas. O cansaço passa a ser constante, mesmo sem excesso aparente de tarefas.
Não sentir também cansa.
Anestesiar-se continuamente para não sofrer acaba também bloqueando a possibilidade de sentir alegria, entusiasmo, conexão. A vida fica funcional — mas vazia de afeto, de presença, de significado.
O que esse vazio não é:
Não é falta de gratidão
É importante dizer com clareza:
Esse vazio não é falta de gratidão. Não é fraqueza. Não é preguiça. Não é "frescura". Não é algo que se resolva apenas com frases motivacionais ou "pensar positivo". E ele também não precisa, necessariamente, ser encaixado em um rótulo de transtorno. Tratá-lo apenas como sintoma é reduzir algo que é profundamente humano.
Escutar o vazio como ato de responsabilidade
Escutar esse vazio exige coragem — não porque você vá encontrar respostas imediatas, mas porque será convidada a sustentar perguntas importantes:
O que realmente importa para mim hoje?
Em quais momentos eu me sinto viva, presente, inteira?
Que sonhos fui deixando para depois?
Que partes minhas eu precisei esconder para dar conta de tudo?
Essas perguntas não pedem pressa. Pedem espaço. Pedem escuta. Pedem presença.
Buscar um espaço de escuta qualificada não é sinal de fragilidade. É um movimento de responsabilidade emocional.
É reconhecer que seguir funcionando sem se escutar também é uma escolha.
Fechamento
Sentir um vazio mesmo com a vida "organizada" é mais comum do que se imagina.
Nem sempre isso significa que tudo está errado. Muitas vezes, significa que algo precisa ser revisto, ressignificado, atualizado.
Não há urgência. Não há respostas prontas.
Apenas a possibilidade de escuta.
Um convite
Se ao ler este texto você se reconheceu, talvez esse vazio esteja te dizendo algo importante — mesmo que ainda não esteja claro o quê.
Você não precisa ter todas as respostas para começar.
Às vezes, o primeiro movimento é apenas admitir para si mesma(o):
“Tem algo em mim que está pedindo atenção.”
A partir daí, é possível:
criar pequenos espaços de silêncio no dia
perceber o que te aproxima e o que te afasta de si
e, se fizer sentido, buscar um lugar de escuta segura e ética para caminhar esse processo com apoio.
O vazio não é o fim.
Ele pode ser o início de uma nova forma de estar na sua própria vida:
com mais presença, mais verdade, mais sentido.
Algumas perguntas não pedem resposta imediata. Pedem espaço.
Quando fizer sentido, existe a possibilidade de uma conversa inicial para compreender melhor esse momento.
Andréa Araújo
Psicóloga Clínica | 38 anos de experiência
Abordagem Existencial Integrativa | Atendimento Online para Adultos e Casais




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