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Como nomear o que você sente quando você tem TDAH e alexitimia leve

26 de mai.
9 min de leitura


Existe um tipo de sofrimento que é particularmente solitário: você sabe que algo está errado, sente no corpo, na tensão do queixo, no peso nos ombros, na irritação que aparece sem aviso, mas quando alguém pergunta "o que está acontecendo com você?", a resposta não vem. Não porque você esteja escondendo. Não porque seja fechada ou "difícil". Mas porque, genuinamente, as palavras não chegam.


Se isso soa familiar, pode ser que você esteja experienciando o que a psicologia clínica chama de alexitimia — e pode ser que ninguém tenha te dito ainda que isso tem uma razão neurológica muito concreta, e que é mais comum em pessoas com TDAH do que se imagina.


Este artigo existe para isso: para que você pare de interpretar o seu silêncio emocional como falha de caráter e comece a entendê-lo como informação sobre como o seu sistema nervoso funciona.


Mulher adulta olha pensativa pela janela com gotas de chuva, mão no rosto, em ambiente acolhedor com luz quente — representando a dificuldade de nomear emoções no TDAH e alexitimia
Alexitimia leve no TDAH: o sentimento existe, mas as palavras não chegam.

Primeiro: o que é, exatamente, alexitimia

O termo vem do grego: a (sem) + lexis (palavra) + thymos (emoção). Literalmente: sem palavras para a emoção. Foi cunhado em 1973 pelo psiquiatra Peter Sifneos para descrever pacientes que tinham dificuldade não em sentir, mas em identificar, diferenciar e verbalizar o que sentiam.


É importante dizer isso de forma muito clara desde o início: alexitimia não é ausência de emoção. É uma dificuldade específica no processamento emocional, na ponte entre o que o corpo experimenta e a linguagem que o nomeia.


Clinicamente, se manifesta em alguns eixos principais: dificuldade em identificar os próprios sentimentos e distingui-los de sensações corporais; dificuldade em descrever esses sentimentos para outras pessoas; pensamento predominantemente orientado para fatos externos e concretos, em detrimento da vida interior; e, muitas vezes, uma vida imaginativa e de fantasia reduzida ou empobrecida.


Na escala clínica, a alexitimia pode ser leve, moderada ou severa. A maioria das mulheres com TDAH que chegam ao consultório está em um espectro leve a moderado — o que significa que elas sentem muito, frequentemente com intensidade, mas têm dificuldade em organizar esse sentir em linguagem.


Por que alexitimia e TDAH andam juntos

Esta é a parte que a maioria dos conteúdos sobre TDAH não aborda. E é fundamental.


O TDAH não é apenas um transtorno de atenção. É, em sua essência, um transtorno de regulação: regulação da atenção, do comportamento, do impulso, e — de forma muito significativa — das emoções. As pesquisas do neurocientista Russell Barkley consolidaram nos últimos anos o entendimento de que a desregulação emocional é uma característica central do TDAH, não um sintoma periférico.


O córtex pré-frontal, que nos auxilia a modular, nomear e contextualizar emoções, funciona de maneira diferente em pessoas com TDAH. A comunicação entre o sistema límbico — onde a emoção é gerada — e as regiões corticais responsáveis pelo processamento consciente e verbal desse estado emocional é menos eficiente. O sinal chega, mas o processamento fica no meio do caminho.


Além disso, estudos como os de Poquérusse et al. (2018) e Edel et al. (2010) mostram correlações significativas entre TDAH em adultos e traços alexitímicos, especialmente nas dimensões de dificuldade de identificar e descrever sentimentos. Uma revisão publicada no Journal of Attention Disorders aponta prevalência de alexitimia em adultos com TDAH consideravelmente acima da média da população geral.


Para mulheres, esse quadro tem uma camada a mais: a socialização feminina exige articulação emocional desde a infância. Meninas são ensinadas a nomear, a mediar, a cuidar emocionalmente do outro. Quando isso não acontece naturalmente, a conclusão tirada — pela própria pessoa e pelo ambiente — costuma ser que há algo de errado com ela, não com o processamento neurológico.


A diferença entre não sentir e não conseguir nomear

Essa distinção é, talvez, a mais libertadora que você pode fazer hoje.


Não sentir seria uma anestesia emocional. Uma ausência. É o que acontece, por exemplo, em quadros dissociativos severos ou em certas formas de depressão profunda. A pessoa descreve um vazio, uma distância de si mesma.


Não conseguir nomear é diferente — e, paradoxalmente, pode ser mais angustiante. Porque o sentimento está lá. Ele ocupa espaço. Ele interfere. Ele afeta decisões, relacionamentos, o corpo. Mas quando você tenta segurá-lo com palavras, ele escapa. É como tentar pegar água com as mãos.


Muitas mulheres com TDAH e alexitimia leve descrevem a experiência assim: "Eu sei que estou mal, mas não sei o que é." Ou: "Eu sinto uma coisa, mas se me perguntam o que é, eu trava." Ou ainda: "Fico irritada e só depois percebo que era tristeza. Na hora, não tinha acesso a isso."


Esse hiato entre experiência e linguagem tem um nome, tem uma explicação, e tem um caminho de trabalho.


Como a desregulação emocional do TDAH complica ainda mais esse quadro

O TDAH traz consigo o que Barkley chama de hiperresponsividade emocional — a emoção chega com intensidade acima da média e passa também mais rapidamente do que em pessoas neurotípicas. É como uma onda que quebra forte e se retira rápido.


Quando você sobrepõe isso à alexitimia, o resultado é um sistema em colapso constante: a emoção chega com força, o corpo a registra, mas antes que a mente consciente consiga nomear e processar o que está acontecendo, a onda já passou ou já virou outra coisa. Você fica com o rastro — a tensão muscular, o cansaço, a irritação difusa — sem saber muito bem de onde veio.


Com o tempo, essa confusão interna pode levar a alguns padrões conhecidos: agir antes de entender o que se sente (reações que depois parecem desproporcionais), somatizar — o corpo fala quando a mente não consegue —, evitar situações emocionalmente densas por antecipação da confusão interna, e dependência do julgamento externo para saber se "é normal" sentir o que está sentindo.


Não é imaturidade emocional. É um sistema nervoso funcionando com recursos diferentes — e sem o mapa adequado.


Fenomenologia aplicada: habitar antes de nomear

Aqui é onde a abordagem existencialista fenomenológica faz uma diferença real na clínica — e onde eu quero te oferecer uma perspectiva diferente da que você provavelmente já encontrou.


A maioria das abordagens terapêuticas para alexitimia parte do pressuposto de que o objetivo é nomear. Expandir o vocabulário emocional, identificar categorias, aprender a distinguir raiva de frustração de decepção. Isso tem valor, mas para pessoas com TDAH e alexitimia, partir da linguagem é começar pelo teto.


A fenomenologia — especialmente na linhagem de Merleau-Ponty — nos lembra que a experiência acontece primeiro no corpo. A emoção é, antes de qualquer coisa, uma experiência vivida, encarnada. Ela tem textura, peso, temperatura, direção. Antes de ter nome, ela tem presença.


O trabalho que faço com mulheres nesse quadro começa não pela pergunta "o que você está sentindo?" mas por algo muito mais simples e muito mais honesto: "onde você sente isso no corpo? Como é? Tem peso? Tem calor? Se tivesse uma cor, qual seria?"


Esse não é um exercício metafórico. É um retorno ao dado imediato da experiência — o que Husserl chamaria de retornar às coisas mesmas. Antes de interpretar, antes de categorizar, antes de narrar: habitar o que está presente.


Para uma mulher com TDAH que passou décadas sendo exigida a performar clareza emocional que não tinha acesso, isso pode ser a primeira vez que ela se sente autorizada a simplesmente estar na experiência sem ter que resolvê-la imediatamente.


Da sensação ao sentido: o caminho terapêutico

A partir desse contato corporal com a experiência, o processo terapêutico começa a construir pontes.


A primeira ponte é do sentido físico para a qualidade emocional. Não "eu estou triste" mas "tem um aperto aqui, e esse aperto tem algo de pesado, de fechado" — que pode ser tristeza, que pode ser luto, que pode ser esgotamento.


A segunda ponte é da qualidade emocional para o contexto. O que estava acontecendo quando isso apareceu? Com quem você estava? O que foi dito? Aqui, o raciocínio narrativo começa a dar estrutura ao que era difuso.


A terceira ponte é do contexto para o significado. O que essa emoção está me dizendo? O que ela quer de mim? O que ela está protegendo? É aqui que a psicologia existencial encontra o processamento emocional: não apenas nomear o sentimento, mas encontrar o que ele carrega de sentido para aquela vida específica.


Esse processo não acontece em uma sessão. Não é linear. E para pessoas com TDAH, requer um cuidado especial com o ritmo — porque o sistema já tem dificuldade com a espera, e aprender a tolerar o not-knowing emocional tem seu próprio desconforto.


Mas o que eu vejo, repetidamente, é que quando uma mulher começa a conseguir habitar suas emoções sem a pressão imediata de nomeá-las corretamente, algo relaxa. A relação com ela mesma muda. A autoridade interna começa a se reconstituir.


Você não é "burra emocionalmente"

Preciso dizer isso diretamente, porque sei que muitas leitoras chegaram aqui carregando essa crença.


Você pode ter recebido essa mensagem de muitas formas diferentes: "você é fria", "você nunca sabe o que quer", "você é difícil de entender", "você parece não me ouvir", "você reage e depois não sabe explicar por quê". Essas mensagens — mesmo quando ditas com afeto — se acumulam e se tornam uma narrativa sobre quem você é.


Mas o que a neurociência e a fenomenologia juntas nos dizem é que o processamento emocional não é uma habilidade moral. Não é questão de esforço, de boa vontade, de comprometimento com a relação. É questão de como o seu sistema nervoso processa e integra informação emocional — e esse processamento é diferente, não deficiente no sentido moral do termo.


Você sente. Você sente muito, provavelmente. Só que o caminho entre sentir e dizer ficou, por razões neurológicas e muitas vezes também históricas, mais longo e mais tortuoso do que para outras pessoas.


E caminhos mais longos podem ser percorridos. Com acompanhamento certo. Com tempo. Com respeito pelo seu ritmo.


O que você pode começar a fazer agora

Não vou oferecer uma lista de técnicas, porque alexitimia não se resolve com técnicas aplicadas isoladamente. Mas posso oferecer algumas práticas de aproximação que costumam criar abertura.


Comece a notar sensações físicas sem precisar nomeá-las emocionalmente de imediato. Quando algo acontecer que mude seu estado interno, pause e pergunte: onde estou sentindo isso? Como está meu peito? Minha garganta? Meu estômago? Isso treina o músculo da atenção interoceptiva — a percepção do interior do próprio corpo — que costuma estar pouco desenvolvido em pessoas com alexitimia.


Experimente escrever sobre o que sentiu sem usar palavras de emoção. Descreva apenas o que aconteceu fisicamente, o que você fez, o que o ambiente era. Muitas vezes, a emoção aparece nas margens dessa descrição, quando não há pressão de nomeá-la.


E, quando possível, busque um espaço terapêutico que respeite esse ritmo — que não te apresse para a nomeação, que aguente ficar no não-saber com você enquanto o processo se organiza.


Se você chegou até aqui, é porque algo neste texto ressoou. Talvez você tenha se reconhecido na descrição. Talvez tenha sentido — sem ainda conseguir nomear — que isso explica algo que você carregava sem entender.


Isso já é muito.


Se você sente tudo e nada ao mesmo tempo, vamos aprender a habitar isso juntas — sem pressa, com presença.



Andréa Araújo - Psicóloga existencialista fenomenológica e integrativa. Especialização em Nutrição Funcional, Florais de Bach e Ayurveda. 38 anos de experiência clínica. Atendimento especializado para mulheres adultas com TDAH, Burnout, AH/SD.




FAQ — Perguntas e Respostas


O que é alexitimia leve?

Alexitimia leve é uma dificuldade parcial de identificar, diferenciar e verbalizar emoções. A pessoa sente, mas tem dificuldade em transformar essa experiência em linguagem. Não é ausência de emoção — é uma dificuldade específica no processamento emocional.

Sim. Pesquisas mostram correlação significativa entre TDAH em adultos e traços alexitímicos. O córtex pré-frontal, que auxilia na nomeação e modulação das emoções, funciona de forma diferente em pessoas com TDAH, tornando o processamento emocional mais difícil.

Alguns sinais comuns são: saber que está mal sem conseguir explicar o que sente, reagir emocionalmente e só entender depois o que aconteceu, ter dificuldade em descrever sentimentos para outras pessoas e perceber emoções primeiro como sensações físicas. O diagnóstico deve ser feito por um profissional de saúde mental.

Sim. O trabalho terapêutico foca em desenvolver a consciência interoceptiva — a percepção das sensações corporais — como ponto de partida para, gradualmente, construir a ponte entre o sentir e o nomear. Abordagens fenomenológicas e existenciais são especialmente indicadas para esse processo.

Sim, e com uma camada adicional: a socialização feminina exige articulação emocional desde a infância. Quando isso não acontece naturalmente por razões neurológicas, a mulher frequentemente interpreta essa dificuldade como falha pessoal, e não como uma característica do seu funcionamento neurológico.




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Andréa Araújo

Psicóloga Clínica | 38 anos de experiência

Abordagem Existencial Integrativa

Atendimento Online para Adultos e Casal | Brasileiros em qualquer lugar do mundo

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